Apr 25, 2025

Zodíaco

 


Vieste com o vento
fascínio de poema esquecido,
atravessas o corpo

e o pensamento.


Milagre mudo.

sorris
e algo em mim, já velho e conformado,
renova o olhar.

Nada prometes,
talvez por isso,

deste-me tudo:
poder sentir, ainda.

 

A minha alma dança, contigo.

no silêncio onde te penso,
rimos sem culpa,
damos as mãos sem medo.

 

O som do teu nome,
doce como a brisa morna
na minha boca

é talvez esse o amor maior.

Acendeste algo sem tocar.
Amo o que és em mim:
essa parte esquecida
que renasceu ao ouvir-te chegar.

Obrigado por existires
tal como és:
vento no rosto
de um homem cansado.

The sweetest fruit - aquarel


 

Dec 22, 2024

Dec 20, 2024

Lana







13 de dezembro

  Naquela sexta-feira 13, estava a lua em quarto crescente acelerado rumo à lua cheia do próximo domingo. Não sei se era uma altura favorável para cortar o cabelo, plantar macieiras, ou trocar dois dedos de conversa em flirt atrevido por entre o fumo ténue de um cigarro eventualmente acabado de acender. Os pensamentos  meio entaramelados pela hipoglicemia do fim da manhã arrastam-me para casa e descubro surpreendido que tinha morrido o  meu amigo de infância - o Chico. Porra Chico, tinhas logo de morrer numa sexta-feira 13, foi azar. Já há muitos anos que não via este companheiro das construções de casas de fazer de conta com filas de tijolos, a imitar o pai pedreiro. Enquanto nos embrenhávamos na construção  a tua conversa voltava sempre ao tema do que ele querias ser quando fosses grande - motorista de camiões, ou coisa do género. Nessa idade eu ainda nem sabia que era preciso vir  a ser  alguma coisa, mas tu, para além da insistência na mesma brincadeira, insistias na mesma conversa da futura profissão. Eras um ano mais velho e, portanto, muito mais conhecedor das coisas da vida e dos modos infalíveis de fazer o ninho atrás da orelha das vizinhas a rondar os cinco ou seis anos, como nós... pelo canto do olho  lembro o grau de indecoroso de promiscuidade de uma aldeia nos anos 60 do século passado, espécie de casulo isolado do resto do mundo - o velho que copulava com a jovem companheira  no chão térreo, obrigando uma criança a assistir entre impropérios e provocações, mostrando como se fazia,  o desocupado que espera e viola a jovem mãe na dobra do caminho atirando o filho contra um muro enquanto consuma o ato, crianças de seis anitos em atividade sexual, como se de adultos se tratasse. Porra Chico, afinal tu só querias ser motorista, presumo que tenhas acabado como operário fabril,  não me lembro de te ter voltado a ver...

Como convém nos tempos atuais soube da tua morte pelo grupo do facebook que dá as notícias da terra. Fiquei chocado! A morte de alguém conhecido e praticamente da minha idade tirou-me um bocado de chão debaixo dos pés. Fiquei, ainda, mais chocado quando me fixei na fotografia que aparecia na notícia publicada pela funerária. Não vou jurar, porém, fiquei com a sensação que tal fotografia tinha sido feita post mortem, entre os preparativos habituais de maquilhagem para colocarem o corpo no caixão. Tive a sensação, posso estar errado, de um certo abandono por parte dos mais próximos! A cor do rosto, os olhos desmesuradamente e estranhamente esbugalhados, transparecendo uma espécie de tristeza imane, talvez pelas agruras da vida e que dizem perpassa de fio a pavio na hora da morte.

Naquele retrato está a marca genética dos teus pais e até do teu avô. Vizinhos sempre muito amigos. Vem-me à memória o teu avô, o Ti Custódio e os seus dotes para aliviar as dores nas costas. Fazia-nos sentar numa cadeira, com os pés bem juntos e  depois, com os seus braços muito compridos puxava os nossos, agarrando com força nos pulsos, alinhando as pontas dos dedos de ambas as mãos bem acima da cabeça e desse modo, alinhando a coluna. Claro que depois, tinha que haver a habitual ladainha rezada por todos os presentes. Eu acreditava na eficácia do movimento, ele acreditava na força da fé... Lembro-me do teu pai, o Sr. Basílio a chegar na sua bicicleta, da sua expressão favorita quando falava com o meu avô "é uma porra Tintoino" e das provas do vinho, para saber se era preciso mais metabissulfito de potássio para harmonizar o néctar. Da tua mãe, a Srª Lucília guardo, todo o carinho e saudade, como a uma mãe, não posso sequer conter as lágrimas, ao lembrar o seu amor incondicional para me amamentar e calar o choro sempre que a minha mãe tinha de ir para a escola ou mais recentemente, sempre que me pressentia lá por casa e me levava um pão caseiro da fornada mais recente e acabávamos a conversar com gosto sobre as coisas da vida...


Jun 16, 2020

skirt in white


 Fortitude & Desire




























Around the corner
Of my contentment,
Incredulous, yesterday
I saw those long beautiful legs,
In a skirt in white
Moving graciouseness
With a litle help
Of the sunset hot breeze!

Come and go,
Walk and walk,
All day, all arround,
Nothing compares
Such hard job!

Even so,
I can see your big smile
Despite the sad look
You forget to hide now and then...

Trying to keep Imaginary memories
Due the hard reallity
Of lifeless lives,
Lying in silence
And helpless you saw
The long dead rows!

During the night
A litle colorfull bird
Came on my balcony,
After a moment of silence
And observation he told:


It's your hope to find 
Life with life
To show your real smile
In tune with you look
Open, bright, deap!

That look of yours
Fragrant of freedom
Fertil of love and desire,
Sensuality and joy! 

That look of yours
Will release in every pore
Reborns springs of the future
Allowing  my tender eyes
To see your beautiful warm smile!

Under the watchfull eye
Of the colorfull bird
I rescued the imaginary memories
And it was almost a fortitude!

Fortitude of a dreamy eye candy
In the promised wait,
Foreshadow of endless caresses
Dreams of stolen kisses in the dawn...

Whispered whispers at the dusk,
Among joyful libations of a sweet wine,
Long sweet kisses
With longing exchange!

However in the darkest place
Of the imaginary memory
Of this traveler without credit
That has to pass without stopping
It's the storm!
It's the stone!
On the trail of the unvisited hapiness!
After all, the optimistics
Can keep distant hope 
On the adage of tempus tempora temperat, 
Changing the sweet imaginary memory
To move in a plane and easy way...





Dec 17, 2018

Sim, não, talvez...


Talvez sim, talvez não!
Hoje tive vontade de escrever.
Hoje não tive vontade de escrever.
Chove e faz frio, lá fora.
Na sala quente, cada um,
virado para si próprio,
Vai-se dedicando a tarefas,
Intrinsecamente, solitárias.
Nós e os gatos, cada um no seu canto.
O relógio vai marcando o compasso,
da debandada para  o casulo protetor...
Anunciam-se coletes amarelos,
Amarelo-esverdeado-fluorescente
Manifestação tuga suave
Na mesa do banquete dos milhões
Continuam impávidos
Os Donos Disto Tudo - os novos e os velhos,
Sugando até ao tutano os famélicos,
Engrossando,mais e mais o exército
de Novos e Velhos escravos,
Terra vilipendiada, Economicismo sarrafaçal,
 Consumismo de fancarias
Banqueiros engordam ociosos,
Avençando políticos de terceira,
Com ar enfadado tiram macacos do nariz
Assistem, fingindo pungimento,
Aos semabrigo acartonados
Na noite, sob o Néon frio,
Das Multinacionais sem face...




Nov 16, 2014

The tide of fortune




"There is a tide in the affairs of men which taken at the flood leads on the fortune. "

                                                                      Dion Fortune - Mystical Qabalah





Sim,
Não,
Talvez..

Um sorriso quente,
Um toque leve,
Uma promessa, apenas.

A sereia sentada,
Na areia molhada,
Junto à rede emaranhada


Águas revoltas,
Das marés sem fim,
De desejos quiméricos.

Rios que não se encontram,
Marinheiro sem rumo,
Marés incontáveis.

O canto da sereia,
Sempre o canto,
Sempre a cauda...

Oct 3, 2014

bati à porta

Bati à porta
Não a abriste

Dei meia volta
Resignado
Dobrei uma esquina
O jardim das delícias
Permanecia ali
Com a cancela
De gonzos quebrados
Vi um gato pardo
Subi uma escada
Galguei o muro
De musgo e orvalho
Um cão latia na ruela
Caí do outro lado
Junto à rosa canina
Cheirava a lama
E maçãs verdes
Atirei uma pedra
Para o charco
Uma rã saltou

Encostei-me ao muro
Deixei vir o silêncio
Da noite sem lua
Sem espera agendada
Da porta que se abrisse
Da cancela quebrada









Feb 6, 2010

o desenho como facilitador da experiência de fluxo

Como qualquer objecto, um livro, um tratado, ou uma dissertação, estão eivados, inexoravelmente, das quatro causas aristotélicas: causa motora, causa material, causa formal e causa teleológica, ou causa final. Considerando que podemos ver facilitada a experiência de fluxo através do desenho, encontraremos a desejada teleologia, independentemente da persistência ou da efemeridade do registo/ acto/facto, inadvertidamente serendípico, ou intencional e esforçadamente conseguido. Se o ponto mais próximo desta "Cidade de Deus" é a experiência óptima proporcionada pelo desenho, então, o início do caminho, correspondente à causa primeira, ou causa motora, começa pela compreensão do Desenho como forma de linguagem, isto é, como estrutura simbólico-gramatical portadora da dualidade compreensão/explicação do mundo que nos rodeia através dos mecanismos inerentes à percepção. Ou seja, conhecimento, que, tal como todas as outras linguagens, mas também, em relação com as outras formas de linguagem, nos ajuda a estruturar o pensamento, logo, nos auxilia à integração mais confortável no mundo sensorial em que vivemos. Neste percurso, a forma é conferida pela educação, que na actualidade ganha substância no processo dinâmico de ensino e de aprendizagem, cuja mobilização formatadora, não deixa, ainda, de construir a reprodução da divisão social. Atente-se, grosso modo, no forte vínculo socio-profissional protagonizado pelos bons obreiros da "recta ratio factibilium", desde o alvorecer das Academias, certificadoras da divergência entre manualidade e intelectualidade, passando pela formação de operários especializados nos liceus da era industrial, até à educação contemporânea do olhar. À materialidade liga-se, aqui, a compreensão da evolução dos diversos modus faciendi, quer a nível académico, quer a nível estritamente artístico. A ligação estreita entre o método e as técnicas é incontornável, tal como é incontornável a relação condicionadora do discurso face à técnica utilizada e os materiais e suportes em presença no processo de produção gráfica e o resultado desejado. Assim, e dependendo muito do caminho escolhido, a experiência de fluxo será alcançada e persistirá, como num imparável processo diarreico, com vista ao encontro, tão frequente quanto possível, do tal lugar que dá pelo nome de felicidade...

estruturas


Bourdieu propõe-nos uma separação do "artístico" e do "estético", permitindo-nos afirmar a universalidade potencial da arte, pluralizando-a como campo específico de actividades em função de sua aplicabilidade intercultural. O fundamento para o cru­zamento entre arte e estética na moderna sociedade ocidental reside na imanência da arte face à transcendência da estética. A questão do cruzamento, reside na especifici­dade da estética como categoria estri­tamente ideológica, desempenhando, portanto, uma tarefa de legiti­mação ou reconhecimento social do objecto artístico, contribuindo para a construção social desse objecto são também, e sobretudo, contribuições à construção social da própria reali­dade desse objecto, logo, das condições teóricas e práticas de sua existência.  Como sistema técnico, a arte é orientada para as consequências sociais resultantes da produção desses objectos. O poder dos objectos artísticos provém dos processos técnicos que eles próprios encorporam. O encantamento da tecnologia é a magia de preparar coisas, o poder que os processos técnicos têm de lançar uma magia sobre os agentes para que possam experimentar com fascínio a realidade envolvente.

procura de sentido

O objecto artístico é um objecto de comunicação – enquanto objecto de comu­nicação poético-artística reflecte e é reflexo do mundo interior de quem o produz, mas também, do mundo exterior que o circunscreve e, onde se incluem, obviamente, os leitores/receptores que o sabem saborear. O objecto artístico é uma janela aberta à excitação dos sentidos, no prazer da plena fruição ao encontro de silhuetas, de cores, de tons e de matizes em registos-motores ronronando sílabas doces em cada marca libertada no acto criativo. Uma vez que todo o processo de comunicação se fundamenta num sistema de significação, é necessário identificar a estrutura elementar da comunicação. Mesmo que a relação de significação represente uma convenção cultural, podem, no entanto, haver processos de comunicação, aparentemente desprovidos de qualquer convenção significante, nos quais ocorrem, apenas, passagens ou estímulos de sinais. Quando um índice se torna um ponto de partida de um processo de significação, ele deixa de ser, apenas, o resultado final de um processo comunicativo. Associado ao código, ocorrem pelo menos quatro fenómenos diferentes: i) uma série de sinais, regulados por leis combinatórias, que constituem um sistema sintáctico; ii) uma série de conteú­dos de uma possível comunicação, que constituem um sistema semântico; iii) uma série de possíveis respostas comportamentais por parte do destinatário, independen­tes do sistema semântico; iv) uma regra que associa alguns elementos do sistema sintáctico a alguns elementos do sistema semântico ou às respostas comportamentais. Essa regra estabelece que uma dada série de sinais sintácticos se refere a uma dada segmentação do sistema semântico; ou que tanto a unidade do sistema semântico quanto à do sistema sintáctico, uma vez associadas, correspondem a uma dada res­posta; ou que uma dada série de sinais corresponde a uma dada resposta mesmo não se supondo que seja assinalada alguma unidade do sistema semântico. Face aos novos avanços científicos a escola parece, ainda, na prática, entor­pecida na sua actuação junto dos jovens alunos que a frequentam, parecendo não encontrar resposta positiva e efectiva para o dictat legislativo inovador é certo, mas sem reformulação consentânea das estruturas edificadas, dos espaços lectivos e envolventes, mas também, dos próprios cur­ricula respondendo ao pós-modernismo psicossociocultural emergente, em que a par das competências cognitivas baseadas na inteligência formal, lógico-matemática e linguística, de conformação social, importa apetrechar os futuros cidadãos com ferra­mentas apropriadas ao bom desempenho pessoal e social, favorecendo a auto-moti­vação para o desenvolvimento contínuo, para a auto-estima, para a criatividade, para a autonomia, para a necessidade de um des­pertar sensorial que faça apelo às pulsões e às necessidades profundas do ser e que favoreça um conhecimento e reconheci­mento de si mesmo, para a auto-satisfa­ção, enfim para o sucesso pessoal e social conducente a uma socie­dade mais justa, mais equilibrada, mais digna. Parece, pois, premente, aproveitar o legado das disciplinas da área das expressões, para permitir incutir nos nossos alunos a auto-motivação, a auto-estima, trazidas pela criatividade e que conduzam a situações de aprendizagem que levem ao sucesso educativo real, aproveitando as ferramentas tecnológicas que ora se nos ofe­recem no âmbito das novas tecnologias. Se é verdade, pelo menos, à luz da nossa própria idiossincrasia, que não devemos ignorar o papel das técnicas tradicionais no cumprimento do devir artístico e como fautor importante de construção de conheci­mento e sedimentação consequente de experiências de vida congruentes com um ainda desejável virtuosismo promotor de aceitação e reconhecimento social, também não pode ser menos verdade que como humanos e como humanos inexoravelmente gregários devemos aproveitar os avanços tecnológicos para optimizar os nossos meios de comunicação poético-artística. Considerando que somos indivíduos em desenvolvimento permanente, baseados, é certo, nomeadamente, na carga genética de que, também, somos feitos e nos diferencia dos demais, e do percurso que esco­lhemos em cada momento, fruto mais da representação que fazemos do mundo que nos cerca do que da própria realidade – “os meus olhos são uns olhos e é com esses olhos uns que eu vejo no mundo escolhos, onde outros com outros olhos não vêem escolhos nenhuns...” como tão bem diz António Gedeão. Importa, por isso, por um lado, considerar a Arte, delimitando as suas várias vertentes, como aquisição técnica a par da aquisição intelectual, enquanto forma de conhecimento, enquanto manifestação de actividade humana, logo enquanto forma de expressão, logo, enquanto forma de representação peculiar do mundo que nos cerca, do mundo que, eventualmente, nos “impressiona”; o porquê, o como e o para quê das manifestações artísticas em tempos, culturas e lugares definidos. Se a arte enquanto forma de conhecimento, é afectividade, isto é, depende do significado que lhe atribuímos, importa gerar em quem produz objectos de carácter artístico, quer nos próprios artistas, quer nos alunos que frequentam disciplinas de âmbito artístico nos diversos níveis de ensino, a ideia da construção dos significados, mas também, da simbologia, que lhes permitam desenvolver instrumentos de avalia­ção consciente da realidade que os envolve na sociedade em que se situam. As razões substantivas que levam a pessoa a produzir um objecto de arte, à semelhança do que se passa com todas as acções levadas a cabo pelo homem, resultam, tal como refere Miranda dos Santos, de quatro níveis de actividade relacionados com a afectivi­dade, assim, após a recepção da informação, actividade eminentemente cognitiva, o indivíduo faz a respectiva apreciação, isto é, a atribuição de significação, selecciona, decide e, finalmente, age em consciência plena, justamente, fundamentado na atribui­ção de uma determinada significação. A Informação possui dois sentidos fundamen­tais: a quantidade de informação que pode ser transmitida e a quantidade precisa de informação seleccionada que de facto foi transmitida. Nesse sentido, ela pode ser conotada como a passagem, através de um canal, tanto de sinais que não possuem função comunicativa, constituem apenas estímulos, como de sinais com função comu­nicativa, isto é, que foram codificados como veículos de algumas unidades de con­teúdo, sendo assim, objecto de estudo da engenharia da transmissão da informação relativos a processos pelos quais são transmitidos unidades de informação, não signi­ficantes (puros sinais ou estímulos) e significantes (com finalidades comunicativa). Nesta ordem de ideias, facilmente se perceberá que alguém que se dedique à produção de objectos artísticos, mas também, alguém que se dedique a fomentar a produção de objectos de expressão, que se dedique a activar o desenvolvimento cog­nitivo, a activar o desenvolvimento psicológico, a activar o desenvolvimento integral dos nossos jovens concidadãos, através das mais diversas formas de expressividade, não poderá deixar de ter em linha de conta que, com muito maior peso que a activi­dade cognitiva baseada no registo da informação, importa, urge, buscar a resposta no mundo da afectividade. Afectividade em sentido amplo, naturalmente, não, apenas, na empatia desejável entre quem coabita um espaço comum, entre quem urde convivên­cias, cumplicidades... afectividade, mais no sentido de deixar que os olhos vejam, aprendam, que o coração se sobressalte, se excite, pelo prazer, pela beleza que nos envolve, enfim, pela sensação, o tal “facto psicofisiológico provocado pela excitação dos sentidos”... e depois, porque viu, porque sentiu, então que faça, deixando-se docemente guiar pelo cavalo alado que dá pelo nome de Fantasia, montado na sela da Criatividade e segurando as rédeas da Inventividade, voando ligeiro pelos campos da Imaginação.

estruturas


Aristóteles vê na arte um poderoso meio de educação, o mundo sensível que a arte imita, não é Como nos diz Immanuel Kant (1724-1804), independentemente da forma como um conhecimento se possa referir aos objectos, é através da intuição que se relaciona com estes, servindo o pensamento de meio para atingir tal fim. A intuição apenas acontece “se o objecto afectar o espírito de certa maneira”, isto é, se a significação do objecto for pertinente para o observador, encontrando, esta signi­ficação, porventura eco no conceito de simpatia delineado por Scheler (1874 – 1928), “a fusão emotiva do homem com o cosmo”. Daí a necessidade de encontrar uma mediação entre ordem e desordem, redu­zindo a casualidade dos fenómenos que surgem em determinado campo de investiga­ção, de modo a encontrar a constância que mostre as suas relações recíprocas e permita a sua explicação e provável previsão. Foram importantes também a interpretação que Martin Heidegger fez da obra de Friedrich Nietzsche, bem como as leituras estruturalistas tanto de Freud como de Marx. Dado que, Marx privilegia a questão do poder e Freud dá prioridade à ideia de desejo, por seu lado Nietzsche é um filósofo que não dá a primazia a nenhum destes conceitos em detrimento do outro, oferecendo, do ponto de vista filosófico, uma saída que combina poder e desejo. O humanismo tendia, como um motivo central do pensamento liberal europeu, a colocar o "sujeito" no centro da análise e da teoria, vendo-o como a origem e a fonte do pensa­mento e da acção, enquanto que, pelo menos algumas leituras do estrutura­lismo, viam os sujeitos como simples portadores de estruturas. Os pós-estruturalistas continuam, de formas variadas, a sustentar essa compreensão estruturalista do sujeito, concebendo-o, em termos relacionais, como um elemento governado por estruturas e sistemas, con­tinuando a questionar também as diversas construções filo­sóficas do sujeito: o sujeito cartesiano-kantiano, o sujeito hegeliano e fenomenológico, o sujeito do existencialismo, o sujeito colectivo marxista.

Jun 23, 2009

o dia mais longo do ano

Queria falar de quimeras,

Queria falar de sonhos ao entardecer,

Imaginar beijos infindáveis,

Sonhar lábios ferventes,

Sentir tua coluna crispada,

Sob meu tacto vagabundo,

Não saber do sangue,

Nas veias sobressaltado,

Se meu, se teu, talvez,

Num só, prolongado,

Amor, paixão, prazer

Sob o manto da noite

Nós dois colados,

Por suores e gritos

Embriagados de êxtase

Uma e outra vez,

Rompendo Auroras

Sorvendo odores

Indagando à carne

Benefícios de espírito

Eu e tu em afã divinal,

Apenas…

May 14, 2009

Essence

Inevitably,

In its essence,

Tangentially more absolute, my present,

Little differ from my past,

By extrapolation,

Little will differ from my future.

My present,

Backwards projected,

Or onwards projected,

As if a lighthouse was,

Sweeping east and west,

Centred in the glass room,

Of the mirror trick,

Where searchlight of fire if reflected,

Refracted and propagated on space,

Being successful the mist of the time,

As the lighthouse light,

Present is sum

Of moment of ours,

The image in the others,

Searchlight and mirror,

Glassware’s and fog.

Sea that extends

In your warm body,

Of my future memories,

Past participle of a verb

Inevitably regular,

Tangentially absolute,

In its most rich variations.

Perhaps in this time-space,

Where I sit down,

In the calm park bench

Where I tergiversate

In Contemplation,

However of the bending oldness

However of the naughty childish

With pinafore dressed,

Feel my lips in your flesh in flame,

Now, yesterday or, tomorrow…

However, always, always,

An heavenly and fleeting instant!

Mar 28, 2009

Lotus

Above all we should preserve love we're receiving. Love will survive after wellfare and wellbeing disappear... But what is such thing we use to call love??? Clearly a feelling among so many other human mind have develloped under the mankind path to express the understanding of the exterior world... In this bipolar universe of us or, of the culture of us... love-hate; pair-impair; fair-unfair, black-white... That is why sometimes we feel to experience good luck and good fortune, and when we do, oh how joyful and exciting it is! Getting a phone call out of the blue from the person you’ve fancied for ages asking you out on a date, friends and family throwing you a surprise party –all these experiences or surprises make us feel on top of the world. Conversely, when you hear through a friend that your lover is seeing someone else, your bank account surprisingly turns down, or you lose a loved one – these experiences and shocks can leave us emotionally devastated,feeling as though the world is somehow against us. Anyway if we are able to preserve love we are receiving, clearly we are in the way to achieve the enlightment that helps us to follow in the highway of our destiny...

Mar 15, 2009

My eyes are such eyes and it is with these eyes that I can see in the world what others with anothers eyes do not see... My world is such a world that only my eyes can see as anothers worlds by others sights can be seen... My heart is such an heart a heart that feels feelings of the heart in my mind remains In those memories: Your look Your hook Your mood Your wood of fairy tails Your light Your life water Your joyful Your sadness Your silence Your desire Your warm Your hapiness In a glance spring falls fair well in a dance... on a fullmoon shadow... In this silent dance my ears encompassing the hearts ritms my eyes reading love signs touching the darkness of each long night!!!

Jan 9, 2009

Não haverá lágrima que não seque, nem dor que não ensine

Haverá sempre coisas contra as quais não se pode lutar... poderes instituídos, pobreza de espírito que não se muda, carências materiais que não são recuperáveis nem estão ao nosso alcance compensar. E, como continuava alguém com muito mais sabedoria que a própria idade possa denotar, afinal, enquanto houver vontade e bondade... não haverá lágrima que não seque, nem dor que não ensine. Pois não! E à esperteza, por vezes lapuz, do rato, cujo ano na tradição chinesa ora termina, vai suceder-se, a partir de 26 de Janeiro o ano do búfalo, ou o ano do boi, simbolizando o regresso à terra de pés bem assentes, pondo fim ao ilusório, ao efémero, à arrogância especulativa. Será o retorno ao trabalho concreto, à produção tal como ditam as referências primordiais, a volta à realidade nua e crua contra as mensagens-bolas de sabão de prosperidade e facilidade que hiper-pluri-transversalmente se queria fazer acreditar, um pouco por todo o planeta. Diz quem sabe, que o ano do boi não preconiza pessimismo, ou qualquer tipo de ameaça, representa, antes o retomar de sonhos esquecidos numa qualquer gaveta da nossa memória, dá-nos a força voltar a trabalhar projectos abandonados, quer na nossa vida pessoal, quer a nível da consciência planetária, aplicando os valores humanos de modo mais equilibrado e de forma mais determinada. Por oposição à esperteza lapuz, não se pede nem conformismo nem alienação, antes, em consciência plena se faz um apelo à unidade da humanidade, no sentido da mobilização dos saberes colectivos que permitam incrementar a inventividade, a fantasia, a imaginação e a criatividade, com o objectivo de contribuirmos para a construção de uma sociedade mais livre, mais justa, mais equilibrada... mais humana, afinal!!!!

Jan 3, 2009

Cronos talvez... adiado

Pedindo, licença baixinho, "like me :)", qual pinguim solitário, foste insinuando, num crescendo insistente e incontornável, a tua beleza inigualável. Vieram promessas de amores proibidos, em lugares para lá da realidade plausível. Noites de insónia, de fascínio, de embriaguês de desejos incontidos e inconfessáveis. No jogo erotizado da cabra-cega, acendendo o rastilho de fogo-de-artifício multicolor, levavas-me, sorrindo, pela mão, fazendo-me desviar dos obstáculos que o caminho nos trazia, alimentando a minha sensação de segurança: nada de lugares escusos, nada de inconfidências temerárias, simples e naturalmente,no silêncio febril, serviste-me o teu corpo, em elegante taça de licor dulcíssimo, esperando que até à avidez da última gota, transformasse o prazer sublime em mera efemeridade, afinal. Embriagado pela bebida-desejo, absorto no copo meio vazio, Brandindo no ar teu chicote Cossaco te foste, insinuando que Cronos, algum dia mais favorável seria. Mal consegui ver o teu olhar de soslaio , enquanto a sina me fingias ler, contendo um sorriso trocista... Abandonado, assim, a Tanatos fiquei... Esperando o dia em que Eros se insinuasse, insuflando no vítrio recipiente alguma alquimia própria de dias de configuração astral mais favorável a tão irreverentes amores... Ironia divina, lição irreplegível: quando a esmola se alarga, o pobre insiste em confiar... pois, por tanto assim sempre confiar, de pobre nao mais passará... e de tudo o mesmo podemos dizer, no que em tudo à vida diz respeito... labios, seios, sexos, beijos, êxtases, silêncios, sussurros... efemeridade, imponderabilidade... existência, inexistência, verdade, mentira... e tudo e todos à distância de um simples click, quase nunca acreditando que a mão que nos toca, pode não pertencer ao mesmo corpo dos lábios que nos incendeiam. E quem diz a distância de um click do mesmo se diz da distância de cinco mil quilómetros, medidos do oeste ao este... ou, vice-versa!!!! Ironia divina? Não!, pois Deus, sempre o soubemos, escreve direito por linhas tortas! Ironia humana! pois a mão humana, se assim o deseja, sempre escreverá torto por direitas linhas... Jogo de toca e foge, sorriso de alquimista, cartomantes de papelão, budas de lata e cordel...

Oct 27, 2008

jardim secreto

Estava entreaberta a velha cancela de ferro forjado, forcei um pouco os gonzos enferrujados, presos pelo pouco uso, e fui entrando. Uma alameda cerrada, de choupos ladeada, indicava o caminho a seguir... despreocupado, sigo, entretido com o som dos meus passos na gravilha... até que chego a um cruzamento... paro, aspiro profundamente o ar fresco que me inunda as narinas e, num crescendo, percebo a fragrância leve do jasmim que vinha do lado mais à direita, atraído por tão doce odor entrei naquele que seria o primeiro de sete labirintos, como mais tarde vim a constatar. Do nada, (ou fosse de trás de um arbusto?) surgiu um berbere de imaculado branco vestido com seu turbante verde, cumprimentou-me cortês: - "Salamalekum, Ahlam wasa Ahlam! Salamalekum ! Heidi mamlaket, As salem, Alah, mana!", cuja tradução será qualquer coisa como: entre, seja bem-vindo, este é um lugar de paz, Deus está aqui!" Apesar da surpresa - quase susto- da entrada abrupta, de tal personagem, sentia-me verdadeiramente em paz... a cada inspiração intensificava-se o aroma inebriante do jasmim... continuei a caminhar, mas deixei de prestar atenção ao marulhar dos sapatos sobre a gravilha... aquele aroma doce, perturbava-me, ao mesmo tempo que me atraía, mais e mais para dentro do labirinto... penso que já não andava... sentia-me a levitar apenas a alguns centímetros do chão, puxado como que por uma mão invisível... não estava assustado... creio que também não sonhava... o que seria aquilo???? Sentia certo turpor que me tolhia os movimentos, em boa verdade, não me apetecia sair dali... mas se quisesse sair, ainda que por instante fugaz, tal não teria sido possível, pois era como se não tivesse pernas, mãos, braços, face... apenas os olhos se podiam mover, na cavidade ocular, para cima, para baixo, para a direita, para a esquerda, do canto inferior esquerdo, para o canto superior direito e outros tantos movimentos similares a um qualquer sistema óptico robotizado... Nada posso dizer sobre a duração daquele fenómeno, talvez se fosse gradualmente dissipando, à medida que tomei consciência de um outro cheiro que se ia sobrepondo ao do jasmim, a esta altura, já nada inebriante, talvez um pouco redondo, ainda... agora era um cheiro cru, anguloso, que se metia pelas narinas dentro às lufadas, o equivalente ao odor da cinza totalmente consumida e esfriada. Deve ser esse, também, imagino, o cheiro da derrocada da torre, algum tempo após a refrega, como pressagia o naipe do tarot... o cheiro do fim de ciclo e anúncio de um recomeço... deve ser, não sei... bússola, não havia, o céu fez-se negro, sem estrela ou lua, ali era eu e aquele jardim labiríntico e, eventualmente, perfumado. Certo, certo, eu sabia, para trás já não podia voltar... experimentei o corpo: movi as mãos, rodei os pulsos, balancei o pescoço e ensaiei uma marcha dobrando as pernas fazendo chegar os joelhos à altura da barriga... parecia que não faltavam peças e todas funcionavam minimamente... sorri para mim mesmo... Dois passos em frente, tacteio o ar... nenhum obstáculo... outro passo mais curto, braços ainda mais estendidos, toco em qualquer coisa, algo arredondado, macio, quase sedoso... não conseguia perceber que tipo de matéria era aquela... a temperatura era semelhante à do ambiente, talvez um pouco superior, quasae nada... fui tacteando, tentando perceber a forma...

Oct 3, 2008

o tempo e o lugar

---------------- Now playing: RoseWynde - AveMaria via FoxyTunes

The most beautiful rendition of Ave Maria I've ever heard

[via FoxyTunes / RoseWynde]

Oct 2, 2008

visita ao lugar que dá pelo nome de felicidade

Como de quase tudo da vida, há, pelo menos, três mil anos, também já se sabia que a felicidade é a grande meta da vida de cada um- Aristóteles na sua Ética a Nicómaco, telos de convergência do projecto de vida pessoal. A nata da nata do saber contemporâneo, em Harvard sediada, pela boca nomeadamente, de Mihaly Csikszentmihalyi com a sua experiência óptima ou experiência de fluxo ("flow"), ou de Daniel Gilbert e o seu "stumbling on hapiness", revertido para português do Brasil, entre outros títulos como, "tropeçar na felicidade", levam-nos a admitir, por um lado a genialidade dos ancestrais amigos do conhecimento, por outro a distância intelectual tão estreita que separa qualquer coisa como cinquenta gerações de humanos, apesar do suposto avanço tecnológico vertiginoso e, por último, a pertinência que determinadas questões continuam a representar para uma existência terrena desejavelmente mais confortável. Não temos, de facto, de remontar à alegoria do Génesis, para aceitar que o fruto do conhecimento que nos expulsa da segurança morna das entranhas do ventre materno, é o mesmo que nos pode fazer visitar, tão assíduamente quanto possível, essse lugar que dá pelo nome de felicidade. Então, como agora, não é o poder económico, político, militar, social, ou outro, que serve de veículo para tais visitas. O veículo, estará, se quisermos concordar com Maturana e a sua "árvore do conhecimento" , nas sinapses neuronais que, afinal de contas, condicionam a nossa percepção do mundo que nos rodeia e, por arrastamento, condicionam, personalizam e subjectivizam a compreensão e o conhecimento desse mesmo mundo. Mas, apesar da condicionante subjectiva, não nos repugna acreditar que haverá constantes exógenas globais, que catapultam a mente para um ligeiro estado de alteração de consciência propiciador de, em fruição, nos deixar andar despreocupadamente de bicicleta, fazer uma partida de ténis, tricotar um belo cachecol, produzir uma apetitosa iguaria, tocar uma agradável sonata, manter um diálogo harmonioso... ou fazer um desenho que nos faça sentir orgulhosos de nós mesmos, levando-nos a uma efémera visita ao tal lugar que dá pelo nome de felicidade, no climax da experiência óptima conduzida pela " recta ratio factibilium"... permitindo que a boa obra eleve, também, o obreiro, fazendo-o bom e merecedor de alcançar as portas da Cidade de Deus...

Apr 2, 2008

sad sad evening

now the evening felt just before West push the opposing Sun at Venus Augury of unprotected loves nothing nor for the rest of observing moons wich only shakes the poor aroma in this breeze nothing only that so much long silence in the deep of one's soul In the overlapping deep racket of the remaining portion of the world nothing nor laughs nor tears nothing me… Only me and Venus coasts directed to the Sun the night felt, so do I felt when looking at sadness waiting for the trot of those dawn pulling horses for the regal car waiting… swims nor magic springs nor lost beaches in this blue made skypencil sculpted in solitary Agadir rock remaining in this dusk passing away and nothing wich is thing none boils on me a touch every_thing - no_thing -such_thing Meditation Breath Nothing Pluriverse, Universe, Verse, Nothing!!!!

Mar 12, 2008

peço imensa desculpa...

Desculpe qualquer coisinha! Eis a melhor estação para lançar ao solo a pequena sementita desta planta rasteira que dá pelo nome de “Será que?”, também conhecida como “Dúvida”. Este solo tão fértil e tão propício ao florescimento da “Dúvida”resulta da conjuntura económica, política e social em que vivemos neste nosso planeta que nos serve de casa. E a ordem da conjuntura é mesmo esta: económica, política e social. É o poder económico que, verdadeiramente, nos governa, submerge e, paternalmente, sustenta, condiciona e legisla nas chamadas democracias representativas. A Hidra capitalista, numa interminável auto-replicação, já não tem corpo, já não tem face e, dificilmente, tem um nome que possamos nomear, ou apontar, ou pedir explicações: “somos todos – não é ninguém”. O poder económico não se sujeitou a qualquer escrutínio e, no entanto, sublinha cada tomada de decisão política, permitindo a perpetuação do sistema político. Ao fornecer o alimento fundamental – capital, este poder exige, em contrapartida, a aplicação da velha fórmula “dividir para reinar”, através da reprodução das assimetrias sociais, cultivadas, à força, no alfobre que dá pelo nome de educação. O sistema de ensino, urdido no conceito da chamada “educação de massas”, mais não faz que manter entorpecidos os diversos actores presentes no processo – pais, professores, alunos. Tal entorpecimento encontra eco, fundamentalmente, na ausência de exploração de três tipos essenciais de competências sólidas: no domínio da afectividade, no domínio da criatividade e no domínio do sentido crítico. Só com o desenvolvimento do potencial inscrito nestes domínios é possível alcançar a plenitude da nossa condição como seres humanos. A escola não ensina a lidar com as emoções, pois continua a pensar a sua cau-sa motora no racionalismo seiscentista. E, no entanto, é através da emoção que encontramos a significação que nos permite seleccionar a informação do mundo que percepcionamos, conduzindo-nos ao conhecimento. É, também, pela emoção que podemos gerir a interacção com o outro, nesta teia gregária que nos comporta, na ânsia de encontrar no outro o reflexo a que nos ancoramos e sufraga o nosso juízo crítico. Se houvesse uma escola, algures no Paleolítico, os pedagogos de então, trata-riam de transmitir aos seus pupilos os mais recentes conhecimentos para melhor caçar bisontes – precavendo a sobrevivência. A melhor forma de ensinar/ aprender a “caçar bisontes” e poder sobreviver, nos dias que correm, é, quiçá, através do desenvolvimento de competências que nos ajudem a resolver os problemas novos, que em catadupa nos assaltam num mundo em constante, apressada e complexificada mudança. Não podemos deixar de concordar com Alvin Toffler que há alguns anos afirmava, ao observar o percurso político europeu: “a estratégia implícita dos vossos governos ou mesmo da burocracia em Bruxelas continua a ser esta: alimentar a primeira vaga, ou não tenha o 'lobby' da agricultura um peso enorme; apoiar a segunda vaga, de modo que empresas que não são competitivas sobrevivam; e ignorar, em larga medida, os empreendedores da terceira vaga.” E, agora mais recentemente, no nosso país, em entrevista, defendia que a escola tal como a conhecemos tem os seus dias contados, persistindo na formação de empregados fabris, quando, em boa verdade, os jovens quando saírem do sistema de ensino, não poderão já “caçar bisontes” nas fábricas desactivadas. Como dizia aquele pensador, mais valia que a escola investisse no ensino das questões relacionadas com a publicidade, decifrando os códigos, símbolos, signos e sinais aí presentes. Coincide esta visão, em grande parte, como sabemos, com aquela outra defendida por Rudolf Arnheim quando nos adverte para a importância de ajudarmos as nossas crianças e os nossos jovens a lidarem com o mundo de imagens em que vivemos. Porquanto, contrariamente ao defendido pelos adeptos de Descartes, a percepção é uma operação mental fundamental no processo cognitivo, produtora de conhecimento, pela experiência do mundo. Deste modo, não seria elementar investir na educação para a “caça de bisontes”? Dado que se pretende reequilibrar o deficit público, designadamente, através de um refinado sistema de avaliação da função pública, em geral, e dos docentes, em particular, reorganizando patamares de progressão, não faria, também sentido implementar um sistema educativo mais próximo da realidade? Outorgando a óbvia autonomia às escolas e trabalhando, por isso, num plano mais restrito, é nossa convicção, que seria possível chegar a um estado da “experiência óptima” no processo ensino/aprendizagem próximo do preconizado por Csikszentmihalyi. E, assim, tendo a coragem de aliviar a carga burocrática através da recolocação, despedimento ou reforma de técnicos superiores desnecessários em secretarias supérfluas, em departamentos dispensáveis, em secções escusadas, ou gabinetes inúteis, não seria, definitivamente, possível reequilibrar as contas públicas? Tornar mais feliz a máquina economicista? E, sobretudo, formar cidadãos mais responsáveis, mais criativos, mais críticos, mais empenhados em construir uma sociedade mais justa e feliz? Terei semeado a “Dúvida”, a tal plantita rasteira?

Oct 30, 2007

entre cronos e tanatos

Terá Eurípedes algum dia sonhado, embalado por inebriante Hipnos, que o remoto Cronos, antes de ser definitivamente encarcerado sob o olhar vigilante de Tanatos, poderia perturbar a existência de Tecna?
Confesso que não sei a resposta, pode ser que sim, pode ser que não... ou, um imenso talvez!!!!
Mas nesta luta contra a morte lenta que logo ao nascimento se anuncia, servimo-nos do saber fazer para ganhar algum tempo a Tanatos. E para saber fazer precisamos de aprender, quer através da nossa própria experiência em confronto com a nossa própria existência, quer através da conformação socio-psico-cognitiva engendrada por qualquer sistema educativo...
A tribo do Paleolítico sobrevivia e garantia a perpetuação porque os seus jovens membros eram educados no correcto manejo do arco e da flecha de modo a permitir uma frutuosa caçada.
Supostamente, quanto mais búfalos o jovem trouxesse para a caverna, melhor classificado ficaria para copular com o maior número das mais belas e sedutoras do condomínio... gerando novos caçadores, ampliando a população e possibilitando o alargamento da área cinegética familiar/tribal.

Aug 24, 2007

onze do oito

Não penses que esqueço.
Sobretudo não esqueço a véspera.
Sobretudo não esqueço o último abraço entre alucinações e lágrimas.
Mas também lembro as passeatas trágico-cómico-patéticas, catitas quase, pelos corredores labirínticos a empurrarmos aquela panfernália toda, num quase mistério gozozo de passeio de fim de tarde, de braço dado... conversa quase de circunstância e sorriso cúmplice...
Como lembrança doce da esperança infundada, afinal, deixava-te descansar os pés sobre os meus, após espera infinda em que já não tinhas posição...
No último dia de tanto doer, provavelmente, já lá não estavas...
partiste de rosto crispado e dentes rilhados!!!!!!!!!!!
Não penses que esqueço!
Agora, como há dez anos, descansa em paz.
Até, talvez, um dia...

Jun 14, 2007

arte educação

Sócrates, ao que dizem, personagem inventada por Platão, terá afirmado, há dois mil e quinhentos anos: "Eu só sei que nada sei". E eu, que nada sei, dois mil e quinhentos anos , uns quantos meses e algumas horas, depois daquela célebre elocubração, apenas sei que nem daqui a dois mil e quinhentos segundos, quanto mais daqui a dois mil e quinhentos anos alguém imaginará o que quer que seja que eu possa ter dito ou mesmo escrito. Não tenho qualquer pretensão, aliás, por demais ridícula, de querer tirar do respeitável pódio do conhecimento humano, tão vetusto filósofo. Nem este, nem outro qualquer, evidentemente.
Mas o que aqui me trouxe não foi qualquer discussão sobre pódios. Antes, sim, a constatação que há mais de dois mil e quinhentos anos a arte e a sua educação e a influência de ambas na construção social é discutida. E esta discussão, com o passar dos tempos e com a supremacia desta ou daquela forma de ver, ora pende para uma visão mais platónico-dionisíaca, ora para uma visão mais aristotélico-apolínea. E, independentemente, do pendor mais emocional ou mais racional, se é que ainda faz sentido esta dicotomia inventada pelos positivistas, o certo é que ninguém nega a importância da arte na sociedade, também poucos têm coragem de negar explicitamente o papel da arte na educação, uns quantos visionários negarão, certamente, o papel da educação artística na educação/construção de conhecimento.
Importa, por isso, fazer um esforço de esclarecimento: (a cont.)