Estava entreaberta a velha cancela de ferro forjado, forcei um pouco os gonzos enferrujados, presos pelo pouco uso, e fui entrando. Uma alameda cerrada, de choupos ladeada, indicava o caminho a seguir... despreocupado, sigo, entretido com o som dos meus passos na gravilha... até que chego a um cruzamento... paro, aspiro profundamente o ar fresco que me inunda as narinas e, num crescendo, percebo a fragrância leve do jasmim que vinha do lado mais à direita, atraído por tão doce odor entrei naquele que seria o primeiro de sete labirintos, como mais tarde vim a constatar.
Do nada, (ou fosse de trás de um arbusto?) surgiu um berbere de imaculado branco vestido com seu turbante verde, cumprimentou-me cortês: - "Salamalekum, Ahlam wasa Ahlam! Salamalekum ! Heidi mamlaket, As salem, Alah, mana!", cuja tradução será qualquer coisa como: entre, seja bem-vindo, este é um lugar de paz, Deus está aqui!"
Apesar da surpresa - quase susto- da entrada abrupta, de tal personagem, sentia-me verdadeiramente em paz... a cada inspiração intensificava-se o aroma inebriante do jasmim... continuei a caminhar, mas deixei de prestar atenção ao marulhar dos sapatos sobre a gravilha... aquele aroma doce, perturbava-me, ao mesmo tempo que me atraía, mais e mais para dentro do labirinto... penso que já não andava... sentia-me a levitar apenas a alguns centímetros do chão, puxado como que por uma mão invisível... não estava assustado... creio que também não sonhava... o que seria aquilo????
Sentia certo turpor que me tolhia os movimentos, em boa verdade, não me apetecia sair dali... mas se quisesse sair, ainda que por instante fugaz, tal não teria sido possível, pois era como se não tivesse pernas, mãos, braços, face... apenas os olhos se podiam mover, na cavidade ocular, para cima, para baixo, para a direita, para a esquerda, do canto inferior esquerdo, para o canto superior direito e outros tantos movimentos similares a um qualquer sistema óptico robotizado...
Nada posso dizer sobre a duração daquele fenómeno, talvez se fosse gradualmente dissipando, à medida que tomei consciência de um outro cheiro que se ia sobrepondo ao do jasmim, a esta altura, já nada inebriante, talvez um pouco redondo, ainda... agora era um cheiro cru, anguloso, que se metia pelas narinas dentro às lufadas, o equivalente ao odor da cinza totalmente consumida e esfriada.
Deve ser esse, também, imagino, o cheiro da derrocada da torre, algum tempo após a refrega, como pressagia o naipe do tarot... o cheiro do fim de ciclo e anúncio de um recomeço... deve ser, não sei... bússola, não havia, o céu fez-se negro, sem estrela ou lua, ali era eu e aquele jardim labiríntico e, eventualmente, perfumado.
Certo, certo, eu sabia, para trás já não podia voltar... experimentei o corpo: movi as mãos, rodei os pulsos, balancei o pescoço e ensaiei uma marcha dobrando as pernas fazendo chegar os joelhos à altura da barriga... parecia que não faltavam peças e todas funcionavam minimamente... sorri para mim mesmo...
Dois passos em frente, tacteio o ar... nenhum obstáculo... outro passo mais curto, braços ainda mais estendidos, toco em qualquer coisa, algo arredondado, macio, quase sedoso... não conseguia perceber que tipo de matéria era aquela... a temperatura era semelhante à do ambiente, talvez um pouco superior, quasae nada... fui tacteando, tentando perceber a forma...
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