Nov 17, 2008
Oct 27, 2008
jardim secreto
Estava entreaberta a velha cancela de ferro forjado, forcei um pouco os gonzos enferrujados, presos pelo pouco uso, e fui entrando. Uma alameda cerrada, de choupos ladeada, indicava o caminho a seguir... despreocupado, sigo, entretido com o som dos meus passos na gravilha... até que chego a um cruzamento... paro, aspiro profundamente o ar fresco que me inunda as narinas e, num crescendo, percebo a fragrância leve do jasmim que vinha do lado mais à direita, atraído por tão doce odor entrei naquele que seria o primeiro de sete labirintos, como mais tarde vim a constatar.
Do nada, (ou fosse de trás de um arbusto?) surgiu um berbere de imaculado branco vestido com seu turbante verde, cumprimentou-me cortês: - "Salamalekum, Ahlam wasa Ahlam! Salamalekum ! Heidi mamlaket, As salem, Alah, mana!", cuja tradução será qualquer coisa como: entre, seja bem-vindo, este é um lugar de paz, Deus está aqui!"
Apesar da surpresa - quase susto- da entrada abrupta, de tal personagem, sentia-me verdadeiramente em paz... a cada inspiração intensificava-se o aroma inebriante do jasmim... continuei a caminhar, mas deixei de prestar atenção ao marulhar dos sapatos sobre a gravilha... aquele aroma doce, perturbava-me, ao mesmo tempo que me atraía, mais e mais para dentro do labirinto... penso que já não andava... sentia-me a levitar apenas a alguns centímetros do chão, puxado como que por uma mão invisível... não estava assustado... creio que também não sonhava... o que seria aquilo????
Sentia certo turpor que me tolhia os movimentos, em boa verdade, não me apetecia sair dali... mas se quisesse sair, ainda que por instante fugaz, tal não teria sido possível, pois era como se não tivesse pernas, mãos, braços, face... apenas os olhos se podiam mover, na cavidade ocular, para cima, para baixo, para a direita, para a esquerda, do canto inferior esquerdo, para o canto superior direito e outros tantos movimentos similares a um qualquer sistema óptico robotizado...
Nada posso dizer sobre a duração daquele fenómeno, talvez se fosse gradualmente dissipando, à medida que tomei consciência de um outro cheiro que se ia sobrepondo ao do jasmim, a esta altura, já nada inebriante, talvez um pouco redondo, ainda... agora era um cheiro cru, anguloso, que se metia pelas narinas dentro às lufadas, o equivalente ao odor da cinza totalmente consumida e esfriada.
Deve ser esse, também, imagino, o cheiro da derrocada da torre, algum tempo após a refrega, como pressagia o naipe do tarot... o cheiro do fim de ciclo e anúncio de um recomeço... deve ser, não sei... bússola, não havia, o céu fez-se negro, sem estrela ou lua, ali era eu e aquele jardim labiríntico e, eventualmente, perfumado.
Certo, certo, eu sabia, para trás já não podia voltar... experimentei o corpo: movi as mãos, rodei os pulsos, balancei o pescoço e ensaiei uma marcha dobrando as pernas fazendo chegar os joelhos à altura da barriga... parecia que não faltavam peças e todas funcionavam minimamente... sorri para mim mesmo...
Dois passos em frente, tacteio o ar... nenhum obstáculo... outro passo mais curto, braços ainda mais estendidos, toco em qualquer coisa, algo arredondado, macio, quase sedoso... não conseguia perceber que tipo de matéria era aquela... a temperatura era semelhante à do ambiente, talvez um pouco superior, quasae nada... fui tacteando, tentando perceber a forma...
Oct 3, 2008
o tempo e o lugar
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Now playing: RoseWynde - AveMaria
via FoxyTunes
The most beautiful rendition of Ave Maria I've ever heard
Oct 2, 2008
visita ao lugar que dá pelo nome de felicidade
Como de quase tudo da vida, há, pelo menos, três mil anos, também já se sabia que a felicidade é a grande meta da vida de cada um- Aristóteles na sua Ética a Nicómaco, telos de convergência do projecto de vida pessoal. A nata da nata do saber contemporâneo, em Harvard sediada, pela boca nomeadamente, de Mihaly Csikszentmihalyi com a sua experiência óptima ou experiência de fluxo ("flow"), ou de Daniel Gilbert e o seu "stumbling on hapiness", revertido para português do Brasil, entre outros títulos como, "tropeçar na felicidade", levam-nos a admitir, por um lado a genialidade dos ancestrais amigos do conhecimento, por outro a distância intelectual tão estreita que separa qualquer coisa como cinquenta gerações de humanos, apesar do suposto avanço tecnológico vertiginoso e, por último, a pertinência que determinadas questões continuam a representar para uma existência terrena desejavelmente mais confortável. Não temos, de facto, de remontar à alegoria do Génesis, para aceitar que o fruto do conhecimento que nos expulsa da segurança morna das entranhas do ventre materno, é o mesmo que nos pode fazer visitar, tão assíduamente quanto possível, essse lugar que dá pelo nome de felicidade. Então, como agora, não é o poder económico, político, militar, social, ou outro, que serve de veículo para tais visitas. O veículo, estará, se quisermos concordar com Maturana e a sua "árvore do conhecimento" , nas sinapses neuronais que, afinal de contas, condicionam a nossa percepção do mundo que nos rodeia e, por arrastamento, condicionam, personalizam e subjectivizam a compreensão e o conhecimento desse mesmo mundo. Mas, apesar da condicionante subjectiva, não nos repugna acreditar que haverá constantes exógenas globais, que catapultam a mente para um ligeiro estado de alteração de consciência propiciador de, em fruição, nos deixar andar despreocupadamente de bicicleta, fazer uma partida de ténis, tricotar um belo cachecol, produzir uma apetitosa iguaria, tocar uma agradável sonata, manter um diálogo harmonioso... ou fazer um desenho que nos faça sentir orgulhosos de nós mesmos, levando-nos a uma efémera visita ao tal lugar que dá pelo nome de felicidade, no climax da experiência óptima conduzida pela " recta ratio factibilium"... permitindo que a boa obra eleve, também, o obreiro, fazendo-o bom e merecedor de alcançar as portas da Cidade de Deus...
Apr 2, 2008
sad sad evening
now the evening felt just before West push the opposing Sun at Venus Augury of unprotected loves nothing nor for the rest of observing moons wich only shakes the poor aroma in this breeze nothing only that so much long silence in the deep of one's soul In the overlapping deep racket of the remaining portion of the world nothing nor laughs nor tears nothing me… Only me and Venus coasts directed to the Sun the night felt, so do I felt when looking at sadness waiting for the trot of those dawn pulling horses for the regal car waiting… swims nor magic springs nor lost beaches in this blue made skypencil sculpted in solitary Agadir rock remaining in this dusk passing away and nothing wich is thing none boils on me a touch every_thing - no_thing -such_thing Meditation Breath Nothing Pluriverse, Universe, Verse, Nothing!!!!
Mar 12, 2008
peço imensa desculpa...
Desculpe qualquer coisinha!
Eis a melhor estação para lançar ao solo a pequena sementita desta planta rasteira que dá pelo nome de “Será que?”, também conhecida como “Dúvida”. Este solo tão fértil e tão propício ao florescimento da “Dúvida”resulta da conjuntura económica, política e social em que vivemos neste nosso planeta que nos serve de casa. E a ordem da conjuntura é mesmo esta: económica, política e social. É o poder económico que, verdadeiramente, nos governa, submerge e, paternalmente, sustenta, condiciona e legisla nas chamadas democracias representativas.
A Hidra capitalista, numa interminável auto-replicação, já não tem corpo, já não tem face e, dificilmente, tem um nome que possamos nomear, ou apontar, ou pedir explicações: “somos todos – não é ninguém”. O poder económico não se sujeitou a qualquer escrutínio e, no entanto, sublinha cada tomada de decisão política, permitindo a perpetuação do sistema político. Ao fornecer o alimento fundamental – capital, este poder exige, em contrapartida, a aplicação da velha fórmula “dividir para reinar”, através da reprodução das assimetrias sociais, cultivadas, à força, no alfobre que dá pelo nome de educação.
O sistema de ensino, urdido no conceito da chamada “educação de massas”, mais não faz que manter entorpecidos os diversos actores presentes no processo – pais, professores, alunos. Tal entorpecimento encontra eco, fundamentalmente, na ausência de exploração de três tipos essenciais de competências sólidas: no domínio da afectividade, no domínio da criatividade e no domínio do sentido crítico. Só com o desenvolvimento do potencial inscrito nestes domínios é possível alcançar a plenitude da nossa condição como seres humanos.
A escola não ensina a lidar com as emoções, pois continua a pensar a sua cau-sa motora no racionalismo seiscentista. E, no entanto, é através da emoção que encontramos a significação que nos permite seleccionar a informação do mundo que percepcionamos, conduzindo-nos ao conhecimento. É, também, pela emoção que podemos gerir a interacção com o outro, nesta teia gregária que nos comporta, na ânsia de encontrar no outro o reflexo a que nos ancoramos e sufraga o nosso juízo crítico.
Se houvesse uma escola, algures no Paleolítico, os pedagogos de então, trata-riam de transmitir aos seus pupilos os mais recentes conhecimentos para melhor caçar bisontes – precavendo a sobrevivência. A melhor forma de ensinar/ aprender a “caçar bisontes” e poder sobreviver, nos dias que correm, é, quiçá, através do desenvolvimento de competências que nos ajudem a resolver os problemas novos, que em catadupa nos assaltam num mundo em constante, apressada e complexificada mudança.
Não podemos deixar de concordar com Alvin Toffler que há alguns anos afirmava, ao observar o percurso político europeu: “a estratégia implícita dos vossos governos ou mesmo da burocracia em Bruxelas continua a ser esta: alimentar a primeira vaga, ou não tenha o 'lobby' da agricultura um peso enorme; apoiar a segunda vaga, de modo que empresas que não são competitivas sobrevivam; e ignorar, em larga medida, os empreendedores da terceira vaga.” E, agora mais recentemente, no nosso país, em entrevista, defendia que a escola tal como a conhecemos tem os seus dias contados, persistindo na formação de empregados fabris, quando, em boa verdade, os jovens quando saírem do sistema de ensino, não poderão já “caçar bisontes” nas fábricas desactivadas. Como dizia aquele pensador, mais valia que a escola investisse no ensino das questões relacionadas com a publicidade, decifrando os códigos, símbolos, signos e sinais aí presentes.
Coincide esta visão, em grande parte, como sabemos, com aquela outra defendida por Rudolf Arnheim quando nos adverte para a importância de ajudarmos as nossas crianças e os nossos jovens a lidarem com o mundo de imagens em que vivemos. Porquanto, contrariamente ao defendido pelos adeptos de Descartes, a percepção é uma operação mental fundamental no processo cognitivo, produtora de conhecimento, pela experiência do mundo.
Deste modo, não seria elementar investir na educação para a “caça de bisontes”?
Dado que se pretende reequilibrar o deficit público, designadamente, através de um refinado sistema de avaliação da função pública, em geral, e dos docentes, em particular, reorganizando patamares de progressão, não faria, também sentido implementar um sistema educativo mais próximo da realidade?
Outorgando a óbvia autonomia às escolas e trabalhando, por isso, num plano mais restrito, é nossa convicção, que seria possível chegar a um estado da “experiência óptima” no processo ensino/aprendizagem próximo do preconizado por Csikszentmihalyi.
E, assim, tendo a coragem de aliviar a carga burocrática através da recolocação, despedimento ou reforma de técnicos superiores desnecessários em secretarias supérfluas, em departamentos dispensáveis, em secções escusadas, ou gabinetes inúteis, não seria, definitivamente, possível reequilibrar as contas públicas? Tornar mais feliz a máquina economicista? E, sobretudo, formar cidadãos mais responsáveis, mais criativos, mais críticos, mais empenhados em construir uma sociedade mais justa e feliz?
Terei semeado a “Dúvida”, a tal plantita rasteira?
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