Feb 6, 2010

o desenho como facilitador da experiência de fluxo

Como qualquer objecto, um livro, um tratado, ou uma dissertação, estão eivados, inexoravelmente, das quatro causas aristotélicas: causa motora, causa material, causa formal e causa teleológica, ou causa final. Considerando que podemos ver facilitada a experiência de fluxo através do desenho, encontraremos a desejada teleologia, independentemente da persistência ou da efemeridade do registo/ acto/facto, inadvertidamente serendípico, ou intencional e esforçadamente conseguido. Se o ponto mais próximo desta "Cidade de Deus" é a experiência óptima proporcionada pelo desenho, então, o início do caminho, correspondente à causa primeira, ou causa motora, começa pela compreensão do Desenho como forma de linguagem, isto é, como estrutura simbólico-gramatical portadora da dualidade compreensão/explicação do mundo que nos rodeia através dos mecanismos inerentes à percepção. Ou seja, conhecimento, que, tal como todas as outras linguagens, mas também, em relação com as outras formas de linguagem, nos ajuda a estruturar o pensamento, logo, nos auxilia à integração mais confortável no mundo sensorial em que vivemos. Neste percurso, a forma é conferida pela educação, que na actualidade ganha substância no processo dinâmico de ensino e de aprendizagem, cuja mobilização formatadora, não deixa, ainda, de construir a reprodução da divisão social. Atente-se, grosso modo, no forte vínculo socio-profissional protagonizado pelos bons obreiros da "recta ratio factibilium", desde o alvorecer das Academias, certificadoras da divergência entre manualidade e intelectualidade, passando pela formação de operários especializados nos liceus da era industrial, até à educação contemporânea do olhar. À materialidade liga-se, aqui, a compreensão da evolução dos diversos modus faciendi, quer a nível académico, quer a nível estritamente artístico. A ligação estreita entre o método e as técnicas é incontornável, tal como é incontornável a relação condicionadora do discurso face à técnica utilizada e os materiais e suportes em presença no processo de produção gráfica e o resultado desejado. Assim, e dependendo muito do caminho escolhido, a experiência de fluxo será alcançada e persistirá, como num imparável processo diarreico, com vista ao encontro, tão frequente quanto possível, do tal lugar que dá pelo nome de felicidade...

estruturas


Bourdieu propõe-nos uma separação do "artístico" e do "estético", permitindo-nos afirmar a universalidade potencial da arte, pluralizando-a como campo específico de actividades em função de sua aplicabilidade intercultural. O fundamento para o cru­zamento entre arte e estética na moderna sociedade ocidental reside na imanência da arte face à transcendência da estética. A questão do cruzamento, reside na especifici­dade da estética como categoria estri­tamente ideológica, desempenhando, portanto, uma tarefa de legiti­mação ou reconhecimento social do objecto artístico, contribuindo para a construção social desse objecto são também, e sobretudo, contribuições à construção social da própria reali­dade desse objecto, logo, das condições teóricas e práticas de sua existência.  Como sistema técnico, a arte é orientada para as consequências sociais resultantes da produção desses objectos. O poder dos objectos artísticos provém dos processos técnicos que eles próprios encorporam. O encantamento da tecnologia é a magia de preparar coisas, o poder que os processos técnicos têm de lançar uma magia sobre os agentes para que possam experimentar com fascínio a realidade envolvente.

procura de sentido

O objecto artístico é um objecto de comunicação – enquanto objecto de comu­nicação poético-artística reflecte e é reflexo do mundo interior de quem o produz, mas também, do mundo exterior que o circunscreve e, onde se incluem, obviamente, os leitores/receptores que o sabem saborear. O objecto artístico é uma janela aberta à excitação dos sentidos, no prazer da plena fruição ao encontro de silhuetas, de cores, de tons e de matizes em registos-motores ronronando sílabas doces em cada marca libertada no acto criativo. Uma vez que todo o processo de comunicação se fundamenta num sistema de significação, é necessário identificar a estrutura elementar da comunicação. Mesmo que a relação de significação represente uma convenção cultural, podem, no entanto, haver processos de comunicação, aparentemente desprovidos de qualquer convenção significante, nos quais ocorrem, apenas, passagens ou estímulos de sinais. Quando um índice se torna um ponto de partida de um processo de significação, ele deixa de ser, apenas, o resultado final de um processo comunicativo. Associado ao código, ocorrem pelo menos quatro fenómenos diferentes: i) uma série de sinais, regulados por leis combinatórias, que constituem um sistema sintáctico; ii) uma série de conteú­dos de uma possível comunicação, que constituem um sistema semântico; iii) uma série de possíveis respostas comportamentais por parte do destinatário, independen­tes do sistema semântico; iv) uma regra que associa alguns elementos do sistema sintáctico a alguns elementos do sistema semântico ou às respostas comportamentais. Essa regra estabelece que uma dada série de sinais sintácticos se refere a uma dada segmentação do sistema semântico; ou que tanto a unidade do sistema semântico quanto à do sistema sintáctico, uma vez associadas, correspondem a uma dada res­posta; ou que uma dada série de sinais corresponde a uma dada resposta mesmo não se supondo que seja assinalada alguma unidade do sistema semântico. Face aos novos avanços científicos a escola parece, ainda, na prática, entor­pecida na sua actuação junto dos jovens alunos que a frequentam, parecendo não encontrar resposta positiva e efectiva para o dictat legislativo inovador é certo, mas sem reformulação consentânea das estruturas edificadas, dos espaços lectivos e envolventes, mas também, dos próprios cur­ricula respondendo ao pós-modernismo psicossociocultural emergente, em que a par das competências cognitivas baseadas na inteligência formal, lógico-matemática e linguística, de conformação social, importa apetrechar os futuros cidadãos com ferra­mentas apropriadas ao bom desempenho pessoal e social, favorecendo a auto-moti­vação para o desenvolvimento contínuo, para a auto-estima, para a criatividade, para a autonomia, para a necessidade de um des­pertar sensorial que faça apelo às pulsões e às necessidades profundas do ser e que favoreça um conhecimento e reconheci­mento de si mesmo, para a auto-satisfa­ção, enfim para o sucesso pessoal e social conducente a uma socie­dade mais justa, mais equilibrada, mais digna. Parece, pois, premente, aproveitar o legado das disciplinas da área das expressões, para permitir incutir nos nossos alunos a auto-motivação, a auto-estima, trazidas pela criatividade e que conduzam a situações de aprendizagem que levem ao sucesso educativo real, aproveitando as ferramentas tecnológicas que ora se nos ofe­recem no âmbito das novas tecnologias. Se é verdade, pelo menos, à luz da nossa própria idiossincrasia, que não devemos ignorar o papel das técnicas tradicionais no cumprimento do devir artístico e como fautor importante de construção de conheci­mento e sedimentação consequente de experiências de vida congruentes com um ainda desejável virtuosismo promotor de aceitação e reconhecimento social, também não pode ser menos verdade que como humanos e como humanos inexoravelmente gregários devemos aproveitar os avanços tecnológicos para optimizar os nossos meios de comunicação poético-artística. Considerando que somos indivíduos em desenvolvimento permanente, baseados, é certo, nomeadamente, na carga genética de que, também, somos feitos e nos diferencia dos demais, e do percurso que esco­lhemos em cada momento, fruto mais da representação que fazemos do mundo que nos cerca do que da própria realidade – “os meus olhos são uns olhos e é com esses olhos uns que eu vejo no mundo escolhos, onde outros com outros olhos não vêem escolhos nenhuns...” como tão bem diz António Gedeão. Importa, por isso, por um lado, considerar a Arte, delimitando as suas várias vertentes, como aquisição técnica a par da aquisição intelectual, enquanto forma de conhecimento, enquanto manifestação de actividade humana, logo enquanto forma de expressão, logo, enquanto forma de representação peculiar do mundo que nos cerca, do mundo que, eventualmente, nos “impressiona”; o porquê, o como e o para quê das manifestações artísticas em tempos, culturas e lugares definidos. Se a arte enquanto forma de conhecimento, é afectividade, isto é, depende do significado que lhe atribuímos, importa gerar em quem produz objectos de carácter artístico, quer nos próprios artistas, quer nos alunos que frequentam disciplinas de âmbito artístico nos diversos níveis de ensino, a ideia da construção dos significados, mas também, da simbologia, que lhes permitam desenvolver instrumentos de avalia­ção consciente da realidade que os envolve na sociedade em que se situam. As razões substantivas que levam a pessoa a produzir um objecto de arte, à semelhança do que se passa com todas as acções levadas a cabo pelo homem, resultam, tal como refere Miranda dos Santos, de quatro níveis de actividade relacionados com a afectivi­dade, assim, após a recepção da informação, actividade eminentemente cognitiva, o indivíduo faz a respectiva apreciação, isto é, a atribuição de significação, selecciona, decide e, finalmente, age em consciência plena, justamente, fundamentado na atribui­ção de uma determinada significação. A Informação possui dois sentidos fundamen­tais: a quantidade de informação que pode ser transmitida e a quantidade precisa de informação seleccionada que de facto foi transmitida. Nesse sentido, ela pode ser conotada como a passagem, através de um canal, tanto de sinais que não possuem função comunicativa, constituem apenas estímulos, como de sinais com função comu­nicativa, isto é, que foram codificados como veículos de algumas unidades de con­teúdo, sendo assim, objecto de estudo da engenharia da transmissão da informação relativos a processos pelos quais são transmitidos unidades de informação, não signi­ficantes (puros sinais ou estímulos) e significantes (com finalidades comunicativa). Nesta ordem de ideias, facilmente se perceberá que alguém que se dedique à produção de objectos artísticos, mas também, alguém que se dedique a fomentar a produção de objectos de expressão, que se dedique a activar o desenvolvimento cog­nitivo, a activar o desenvolvimento psicológico, a activar o desenvolvimento integral dos nossos jovens concidadãos, através das mais diversas formas de expressividade, não poderá deixar de ter em linha de conta que, com muito maior peso que a activi­dade cognitiva baseada no registo da informação, importa, urge, buscar a resposta no mundo da afectividade. Afectividade em sentido amplo, naturalmente, não, apenas, na empatia desejável entre quem coabita um espaço comum, entre quem urde convivên­cias, cumplicidades... afectividade, mais no sentido de deixar que os olhos vejam, aprendam, que o coração se sobressalte, se excite, pelo prazer, pela beleza que nos envolve, enfim, pela sensação, o tal “facto psicofisiológico provocado pela excitação dos sentidos”... e depois, porque viu, porque sentiu, então que faça, deixando-se docemente guiar pelo cavalo alado que dá pelo nome de Fantasia, montado na sela da Criatividade e segurando as rédeas da Inventividade, voando ligeiro pelos campos da Imaginação.

estruturas


Aristóteles vê na arte um poderoso meio de educação, o mundo sensível que a arte imita, não é Como nos diz Immanuel Kant (1724-1804), independentemente da forma como um conhecimento se possa referir aos objectos, é através da intuição que se relaciona com estes, servindo o pensamento de meio para atingir tal fim. A intuição apenas acontece “se o objecto afectar o espírito de certa maneira”, isto é, se a significação do objecto for pertinente para o observador, encontrando, esta signi­ficação, porventura eco no conceito de simpatia delineado por Scheler (1874 – 1928), “a fusão emotiva do homem com o cosmo”. Daí a necessidade de encontrar uma mediação entre ordem e desordem, redu­zindo a casualidade dos fenómenos que surgem em determinado campo de investiga­ção, de modo a encontrar a constância que mostre as suas relações recíprocas e permita a sua explicação e provável previsão. Foram importantes também a interpretação que Martin Heidegger fez da obra de Friedrich Nietzsche, bem como as leituras estruturalistas tanto de Freud como de Marx. Dado que, Marx privilegia a questão do poder e Freud dá prioridade à ideia de desejo, por seu lado Nietzsche é um filósofo que não dá a primazia a nenhum destes conceitos em detrimento do outro, oferecendo, do ponto de vista filosófico, uma saída que combina poder e desejo. O humanismo tendia, como um motivo central do pensamento liberal europeu, a colocar o "sujeito" no centro da análise e da teoria, vendo-o como a origem e a fonte do pensa­mento e da acção, enquanto que, pelo menos algumas leituras do estrutura­lismo, viam os sujeitos como simples portadores de estruturas. Os pós-estruturalistas continuam, de formas variadas, a sustentar essa compreensão estruturalista do sujeito, concebendo-o, em termos relacionais, como um elemento governado por estruturas e sistemas, con­tinuando a questionar também as diversas construções filo­sóficas do sujeito: o sujeito cartesiano-kantiano, o sujeito hegeliano e fenomenológico, o sujeito do existencialismo, o sujeito colectivo marxista.