Mar 31, 2007

e-mundos virtuais (i)mundos

Apressado e com muita fome entro no restaurante.Escolhi uma mesa afastada do movimento, porque queria aproveitar os minutos de que dispunha para comer, ver uns sites e planear a minha viagem de férias, coisa que não sei o que é há tempos. Pedi um filete de salmão com batatas a murro, uma salada e um sumo de laranja, afinal de contas fome é fome...Abri o meu portátil. E apanhei um susto com aquela voz baixinha atrás de mim: - Senhor, não tem umas moedinhas?- Não tenho, respondi sem olhar.- Só uma moedinha para comprar um pão.- Está bem, eu compro um.Para variar, a minha caixa de correio está cheia de e-mails.Fico distraído a ver poesias, as formatações lindas, rindo com as piadas malucas.Ah! Essa música leva-me até Londres e às lembranças... de outros tempos.- Senhor, peça com manteiga e queijo.Percebo nessa altura que o menino tinha ficado ali.- Ok. Vou pedir, mas depois deixas-me trabalhar, estou muito ocupado, está bem?Chega a minha refeição e com ela o meu mal-estar.Faço o pedido do menino, e o empregado pergunta-me se quero que o mande embora.Digo que está tudo bem. Que o deixe ficar.Que traga o pão e... uma refeição decente para ele.Então sentou-se à minha frente e perguntou:- O que está fazer?Estou a ler uns e-mail.- O que são e-mail?- São mensagens electrónicas mandadas por pessoas pela Internet- É como se fosse uma carta, só que via Internet. - Você tem Internet?- Claro que sim, é essencial no mundo de hoje.- O que é a Internet ?- É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler, escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Há de tudo no mundo virtual.- E o que é virtual?Resolvo dar uma explicação simplificada, sabendo que ele pouco vai entender e deixar-me-ia almoçar, em paz.- Virtual é algo que imaginamos, que não podemos tocar, agarrar, mexer... é aí, também, que criamos as nossas fantasias, transformamos o mundo... quase como se fosse como queríamos ...- Que bom isso. Gostei!- Entendeste o significado da palavra virtual?- Sim, também vivo nesse mundo virtual.- Tens computador?! - Pergunto admirado!!!- Não, mas o meu mundo também é vivido dessa maneira...Virtual.A minha mãe fica todo dia fora, chega muito tarde, quase não a vejo, enquanto eu fico a cuidar do meu irmão mais pequeno que passa todo o tempo a chorar de fome e eu dou-lhe água para ele pensar que é sopa.A minha irmã mais velha sai todos dias, também, diz que vai vender o corpo. Mas, não compreendo... porque ela volta sempre com o corpo.O meu pai está na cadeia há muito tempo. Mas, imagino sempre a nossa família toda junta lá em casa. Muita comida, muitos brinquedos de natal e eu a estudar na escola para vir a ser médico um dia.-Isto é virtual não é senhor???Esperei que o menino acabasse de literalmente "devorar" o prato dele, paguei, e dei-lhe o troco, que me retribuiu com um dos mais belos e sinceros sorrisos que já recebi na vida...
(texto adaptado)

younger, not so much!!!)

Mar 26, 2007

ups-glups

Passo

Passo por ti

Por ti passo de olhar fixo

Fixo o olhar extasiado

Extasiado procuro o recíproco

O recíproco é o vazio

O vazio do teu olhar a perder-se

Perder-se no horizonte sem fim

No horizonte onde passas

Passas tu e passo eu

Tu passas por ti

Eu passo por mim

Duas portas de abrir e fechar

Duas portas lado a lado

Tu olhas e não sabes...

Não sabes o que há do lado de cá

Eu vou para lá, tu vens para cá

Entre o eu cá e o tu lá

Há as duas portas lado a lado!

Neste vai e vai, entretanto,

Passou por ali um Génio

Daqueles que cumprem desejos

Pedi-lhe uma bola de cristal...

Pressuroso meteu a mão no bolso...

Como quem procura

Foi tirando a mão enorme

Do bolso, a manter-me suspenso:

A única bola de cristal

Que me conseguiu arranjar

Não era de cristal, mas de vidro falcato

Vinha no fundo do copo de porcelana

Em que servem a aguardente de arroz

Nos restaurantes chineses:

Vazio nada se vê

Cheio... não se vê o futuro

Antes o passsado em trajes menores

Já gasto pelos olhares de tantos

Tantos mirones de olhares gastos

Procurando em vão

Não a garota gasta de pouca lingerie

Mas um futuro-outro

Que não passa ali à porta...

Porta de abrir e fechar...

Onde cada qual segue seu caminho

Sem reparar que ali,

Naquele ali e então segue outro igual!

Mar 21, 2007

perguntas-me quem sou?

Como não sou poeta, das palavras do poeta me valho... e à pergunta também respondo: nome de Cristo eu nem existo... mas querendo tu... amor... tudo serei... nada de novo a leste do paraíso... aliás, creio que nem a norte, nem a sul... nem, quiçá, a oeste...
E, no entanto, num recanto anterior do meu cérebro mais primitivo jaz a memória do que poderia ser tu te ti tigo... para além da efémera troca de duas ou três frases de interesses desencontrados: eu queria um sim... tu dizias que não... tu tinhas a faca, eu tinha o queijo... nenhum tinha o pão... eu certamente não!
farinha e fermento, alguma água e muita amassadura... até ficar lêvedo... mas tu insistias no não... jamais comemos o pão que um pobre diabo amassaria...
tocaste-me de leve... pedias que sim ou dizias que não?
depois... depois esgueiravas-te por onde podias... passavas no meio da gente para que te não visse... esgueiravas-te por entre os meus dedos que nunca te tocaram, nem de leve, mesmo quando dizias que não e eu desejava que me pedisses que sim... desencontros na vida... mesmo quando trinco uma torrada de pão lêvedo e me lembro de ti... diáfana imagem distante e leve, perdurando, apenas na parte quase mais remota do meu cérebro quase ao léu... quase já sem neurónios para discernir nãos que podem querer dizer sim... e absolutamente despido de neurónios disponíveis para aceitar sins que irreplegivelmente querem dizer não... sonho entorpecido... imaginando que a realidade é...
But, in the end, o onírico não é... e entre o ser e o não ser e o estar e o não estar... fico... como quem jaz morto e desaparece num ermo vale, sem algibeiras aladas, ou alvos lenços de criadas velhas... aquele que inevitável e irremediavelmente foi ou é: o menino-de-sua-mãe... apenas... como todos os meninos-de-suas-mães foram e serão sempre... apenas e só: filhos-de-a-mãe... :-))))))))))))

Mar 11, 2007

sortilégio3

Sempre que a meteorologia o permite e o desejo de partir se torna imensamente maior que o desejo de ficar... aí vou eu... quase invariavelmente rumo a algum ponto bem próximo do mar, deixando entrar pelas narinas o cheiro forte de liberdade, harmonia e paz... tão preciosos para a minha homeostática ideossincrasia... that's it... ha... ha... ha... ah!

anapigmalião

Vi-a, de relance, quase pelo canto do olho, andar feminil a dobrar ligeira aquela esquina. No ar, restou o perfume suave, que acabou por se instalar em local mais ou menos recôndito do meu cérebro, lá para as bandas do giro cingulado, sem que eu fizesse o menor esforço para o reter. Aliás, também não fiz qualquer esforço para me desembaraçar da sua memória (dela e do perfume)... Andou por ali uns tempos despreocupada e dengosa, ligeiramente cheirosa... numa petit dance quase voluptuosa... continuei a subir a ladeira feita escada, cheguei ao topo encontrei uma esplanada... sentei-me, pedi uma água e fiquei a olhar para coisa nenhuma... bom, enfim, pensando melhor fiquei a olhar para a parede velha que ficava mesmo em frente... bebendo da água e olhando para a parede com mais atenção descobri uma nesga que aumentava ao meu olhar curioso... ao longe vi-a, de mármore feita, num pedestal... só não sei se, ainda, cheirava...

sortilégio

Tinha passado a noite numa pensão barata no outro extremo do universo, perto de um buraco negro que aparentemente dava ligação directa e sem atalhos para o big bang inicial, também conhecido no princípio era o verbo. Quando cheguei na madrugada leve daquele início de primavera já o homem tinha a enorme retroescavadora a fumegar silvos e a erguer a pá medonha, muito lentamente, como quem se espreguiça até ao infinito. Quando me viu, abriu a portinhola e de um pulo aterrou no chão perto de mim e sem demoras perguntou - e agora?
- Agora, respondi, como se também perguntasse aos meus botões... Passei a mão pela cabeça como se limpasse os restos de uma teia de aranha que se me tivesse pegado na passagem do túnel , escuro e já pouco usado, onde nem sempre se via uma nesga de luz lá mais ao fundo... e repeti baixo quase para mim e encolhendo os ombros enquanto afundava as mãos nos bolsos... agora?
O maquinista tirou o boné de pala de jogador de basebol e coçou a cabeça enquanto esperava a decisão. A máquina parecendo perceber a tensão do momento aumentava o fumegar e o ranger das engrenagens, juntando-se à espera da decisão. A madrugada também suspensa do veredicto começava a aquecer e a querer dar lugar a manhã soalheira.
Passei os olhos pelo lugar e pensei, com os olhos marejados, como tínhamos sido tontos ao ponto de insistirmos em reconstruir sonho, após sonho em sítio de areias movediças, sabendo que a cada nova alvorada o sonho se desmoronaria... como se também ali Cronos tivesse estabelecido arraiais e sofrego se empanturrasse noite após noite dos próprios filhos tão amados... afinal, dizem, amar e odiar serão a mesma face de uma única moeda... a outra face, por certo, conterá a indiferença e o desprezo!
Voltei para perto do maquinista que apertava com força entre as mãos enormes e grosseiras o chapéu sebento de pala de jogador de basebol e voltou a interpelar-me- então chefe e agora?
Detesto que me chamem chefe. Quase irritado, quase sem me conter, respondi em voz alta: - olhe agora faça o maior buraco que puder e enterre esta merda toda para que não fique mais nada a ver-se. Se quiser plante esse castanheiro e faça o favor de fechar o portão quando se for embora.
Dei meia volta, sacudi as botas do pó daquele lugar e, sem olhar para trás entrei no teletransporte... introduzi as coordenadas do sistema estelar mais longíquo da galáxia mais longínqua de um qualquer universo desconhecido, como quem vai à tabacaria da esquina comprar cigarros e nunca mais volta... e nunca mais voltei... e embora volta não volta sinta nostalgia de ver os sonhos afundarem-se naquele lugar-tempo de areias movediças... nunca mais me senti tão infeliz... e embora uma ou outra lágrima rolem na lembrança quimérica, bendigo a hora em que mandei afundar tudo, ad eterno, naquele fosso enorme...

SORTILÉGIO

Mar 7, 2007

linguas-de-gato

Porque ontem foi domingo levantei-me mais cedo, ajaezei o burro e coloquei-o a trabalhar, que é como quem diz a puxar, a puxar, a puxar... e como ele é mesmo burro, vulgo QI mesmo muito baixo, puxa tudo o que lhe pomos à frente desde J'irai comme un cheval fou até Sarah Brightman... or else... depois, como não tinha queijos do norte... nem meia cura-cheiro-chulé de Pias... comi uma laranja de Orense sem cheiro a Baía nem aroma de Silves, nem a lembrar o bazar de pilhas enormes de tangerinas cheirosas, de mistura com banana de toda a qualidade, goiaba, abacaxi, coco, gengibre, nascer do sol de rosas- lilases quiméricos, do grasnar famélico de corvos em busca de peixe seco estendido nas traseiras dos quintais da temba, no meio do capinzal alto onde petizes apavoradas aproveitavam para fazer as necessidades, mais necessárias ao abrigo de olhares fortuitos... afinal, longe de olhares fortuitos, acho eu... comi umas línguas-de-gato com sabor a limão, a fogão de lenha e tabuleiro besuntado com manteiga... e lá fui à pesca, só com um bocado de fio de nylon e um anzol... acho que a minhoca ia meio encolhida... algures em parte incerta, já nem me lembro bem... ou seria algum camarão mais morto do que vivo de tanto esperar pela pescaria... e zuca-truca, no meio da aflição lá vai fio e anzol e engodo rio dos Bons Sinais abaixo... fiquei a olhar... a ponderar a hipotese de descer por entre os calhaus, mergulhar e apanhar o tesouro... mas acho que era arriscado... agora, no Índico, algures, perto de alguma gamba gorda pairará, talvez... ou talvez não... um fio de pesca de outros tempos, enredado, num anzol ferrugento... daqueles que já não se fabricam, nem com cabeças hipólito com cheiro a petróleo... quase por refinar... depois, bebi uma garrafita de água, como se fosse um redbulldá-te asas e apanhei a 109 cinzenta debaixo de chuva aborrecida até chegar a um lugar ao sol... o que eu andei práki chegar...

Mar 6, 2007

espiral-medusa

confesso que não sei se aconteceu... o melhor mesmo é não confessar e ir directo ao assunto... naquela estrada... a tal da foto da Cris (será ofensivo?? - se for, remodelo), naquele exacto lugar... enfim, dois ou três dedos ao lado... mas, certamente, num outro tempo, o que faz, para efeitos de confissão que se trate, necessariamente, de um outro espaço-tempo, comia muito devagar a crosta de uma chamuça, depois de lhe tirar toda a cebola e mais algum bocadito de recheio sobrante que parecesse cebola, porque cá para mim, cebola é só mesmo crua, de preferência com boroa e azeitonas... mas adiante, estava eu naquela azáfama, quando tropecei num copris que por ali andava a fazer mesuras estranhas a um pfz... e zás, caio, outra vez numa brecha espacio-temporal que me levou muito para lá daquelas núvens purpúreas da "Crisfoto" a lembrar os tempos em que a bela aurora das faces rosadas se deixava passear graciosa no carro do sol... bons tempos aqueles em que as moçoilas não precisavam de base para alegrar as faces e desfazer uma ou outra mazela... desde as reticências eu não escrevi nada disto, ponto final, fiquei meio atordoado pela passagem pela tal brecha e até um pouco indignado, porque o cópris que agora já eram dois, um casal, penso e o pfz que passou a ser três, não paravam de se enlear nas minhas pernas e dificultar-me a progressão... eu naquele enredo e os ponteiros do cronómetro sem saberem se haviam de avançar ou recuar. Era imperioso, lá e então tomar uma decisão! avancei quase furioso... pior a emenda que o soneto caio disparado pelo infinito abaixo, tentando agarrar-me a algum trapo de nuvem que por ali pairasse, tudo em vão... mais rápido que a bala de um canhão do século XV em direcção a uma chamuça estaladiça cheia de cebola ainda a fumegar dei por mim, sem airbag, com a cabeça enfiada entre duas páginas do the new drawing on the right side of the brain da betty edwards, os óculos estavam meio amarfanhados na testa, afastei-me do livro, ainda incrédulo e consegui ler: drawing attention to states of consciousness... ok pensei... ok... só me resta gritar Monangambwiiiiiiiiii, subir às palmeiras e beber marufe... mas onde estavam as palmeiras? olha, não tive outro remédio senão voltar a enfiar a cabeça no meio das páginas do livro da betty e esperar pela próxima brecha espacio-temporal até que copris e pfz's me acordassem...

ao dobrar a esquina

ao dobrar a esquina fiz tanta força que apanhei um torcicolo... não é brincadeira não... no outro dia, por causa da questão de saber a que distância ficava a linha do horizonte para um observador que estivesse sentado na praia com os pezinhos mergulhados na água e a deixar que as pequenas ondas lhe molhassem os calções... acabei por fazer uma hérnia discal a puxar, com força, a linha mais para cá, sim, sim, a tal linha do horizonte, porque a fita métrica era curta e eu não queria dar parte de fraco... medi e voltei a medir, três vezes medi e gritei para a linha do horizonte: aqui com a fita métrica na mão, sou mais do que eu... sou uma turma inteira que quer saber quanto vai daqui até aí... puxei-a, medi e re-medi, fiz a média das medições e voltei-me a sentar na areia molhada à espera das ondas que me molhassem os calções...e escrevi com os dedos na areia o resultado... veio uma sétima onda enorme, tive de fugir e quando voltei... já o mar tinha levado a areia com os números... :-)

Mar 4, 2007

Ponte da Figueira da Foz

há noites em que os gatos pardos à noite parecem, mas não são...

estatuetas em bronze

scamper

balsa talhada, polida e aplicação de patine bronze (sub-capa preta, lixa fina, sub-capa preta, lixa fina, sub-capa preta, palha-de-aço, tintas de água - branco, amarelo, azul, pó-de-talco, polimento com pano macio, spray dourado.... patine antiga: pigmentos: verde alface, azul, alvaiado, goma laca, ouro velho... outras técnicas possíveis: encáustica, cera de sapatos...

Mar 2, 2007

o recipiente dos sonhos

um calhau quase rolado apanhado numa praia qualquer a sul (uma dádiva de Deus)... aço cortado, soldado, torneado, escovado... cilindro acrílico... mangueira de plástico... bijuterias de plástico com luzes e tudo em apelo acrescido ao onírico... algumas noites de insónia... :-)

figura reclinada em arame - estudo

imagem da alegria

recipiente em balsa uma quase "caixa de Nicolau", espiral em pausinhos de espetadas especiais em bambu colados à volta de um arame em aço, daqueles que suportam os "abat-jours" de papel, motor de 4,5 volts retirado de um bólide made in China com concepção do sistema de funcionamento japonês... muitas voltas