Mar 11, 2007

sortilégio

Tinha passado a noite numa pensão barata no outro extremo do universo, perto de um buraco negro que aparentemente dava ligação directa e sem atalhos para o big bang inicial, também conhecido no princípio era o verbo. Quando cheguei na madrugada leve daquele início de primavera já o homem tinha a enorme retroescavadora a fumegar silvos e a erguer a pá medonha, muito lentamente, como quem se espreguiça até ao infinito. Quando me viu, abriu a portinhola e de um pulo aterrou no chão perto de mim e sem demoras perguntou - e agora?
- Agora, respondi, como se também perguntasse aos meus botões... Passei a mão pela cabeça como se limpasse os restos de uma teia de aranha que se me tivesse pegado na passagem do túnel , escuro e já pouco usado, onde nem sempre se via uma nesga de luz lá mais ao fundo... e repeti baixo quase para mim e encolhendo os ombros enquanto afundava as mãos nos bolsos... agora?
O maquinista tirou o boné de pala de jogador de basebol e coçou a cabeça enquanto esperava a decisão. A máquina parecendo perceber a tensão do momento aumentava o fumegar e o ranger das engrenagens, juntando-se à espera da decisão. A madrugada também suspensa do veredicto começava a aquecer e a querer dar lugar a manhã soalheira.
Passei os olhos pelo lugar e pensei, com os olhos marejados, como tínhamos sido tontos ao ponto de insistirmos em reconstruir sonho, após sonho em sítio de areias movediças, sabendo que a cada nova alvorada o sonho se desmoronaria... como se também ali Cronos tivesse estabelecido arraiais e sofrego se empanturrasse noite após noite dos próprios filhos tão amados... afinal, dizem, amar e odiar serão a mesma face de uma única moeda... a outra face, por certo, conterá a indiferença e o desprezo!
Voltei para perto do maquinista que apertava com força entre as mãos enormes e grosseiras o chapéu sebento de pala de jogador de basebol e voltou a interpelar-me- então chefe e agora?
Detesto que me chamem chefe. Quase irritado, quase sem me conter, respondi em voz alta: - olhe agora faça o maior buraco que puder e enterre esta merda toda para que não fique mais nada a ver-se. Se quiser plante esse castanheiro e faça o favor de fechar o portão quando se for embora.
Dei meia volta, sacudi as botas do pó daquele lugar e, sem olhar para trás entrei no teletransporte... introduzi as coordenadas do sistema estelar mais longíquo da galáxia mais longínqua de um qualquer universo desconhecido, como quem vai à tabacaria da esquina comprar cigarros e nunca mais volta... e nunca mais voltei... e embora volta não volta sinta nostalgia de ver os sonhos afundarem-se naquele lugar-tempo de areias movediças... nunca mais me senti tão infeliz... e embora uma ou outra lágrima rolem na lembrança quimérica, bendigo a hora em que mandei afundar tudo, ad eterno, naquele fosso enorme...

No comments: