Dec 22, 2024

Dec 20, 2024

Lana







13 de dezembro

  Naquela sexta-feira 13, estava a lua em quarto crescente acelerado rumo à lua cheia do próximo domingo. Não sei se era uma altura favorável para cortar o cabelo, plantar macieiras, ou trocar dois dedos de conversa em flirt atrevido por entre o fumo ténue de um cigarro eventualmente acabado de acender. Os pensamentos  meio entaramelados pela hipoglicemia do fim da manhã arrastam-me para casa e descubro surpreendido que tinha morrido o  meu amigo de infância - o Chico. Porra Chico, tinhas logo de morrer numa sexta-feira 13, foi azar. Já há muitos anos que não via este companheiro das construções de casas de fazer de conta com filas de tijolos, a imitar o pai pedreiro. Enquanto nos embrenhávamos na construção  a tua conversa voltava sempre ao tema do que ele querias ser quando fosses grande - motorista de camiões, ou coisa do género. Nessa idade eu ainda nem sabia que era preciso vir  a ser  alguma coisa, mas tu, para além da insistência na mesma brincadeira, insistias na mesma conversa da futura profissão. Eras um ano mais velho e, portanto, muito mais conhecedor das coisas da vida e dos modos infalíveis de fazer o ninho atrás da orelha das vizinhas a rondar os cinco ou seis anos, como nós... pelo canto do olho  lembro o grau de indecoroso de promiscuidade de uma aldeia nos anos 60 do século passado, espécie de casulo isolado do resto do mundo - o velho que copulava com a jovem companheira  no chão térreo, obrigando uma criança a assistir entre impropérios e provocações, mostrando como se fazia,  o desocupado que espera e viola a jovem mãe na dobra do caminho atirando o filho contra um muro enquanto consuma o ato, crianças de seis anitos em atividade sexual, como se de adultos se tratasse. Porra Chico, afinal tu só querias ser motorista, presumo que tenhas acabado como operário fabril,  não me lembro de te ter voltado a ver...

Como convém nos tempos atuais soube da tua morte pelo grupo do facebook que dá as notícias da terra. Fiquei chocado! A morte de alguém conhecido e praticamente da minha idade tirou-me um bocado de chão debaixo dos pés. Fiquei, ainda, mais chocado quando me fixei na fotografia que aparecia na notícia publicada pela funerária. Não vou jurar, porém, fiquei com a sensação que tal fotografia tinha sido feita post mortem, entre os preparativos habituais de maquilhagem para colocarem o corpo no caixão. Tive a sensação, posso estar errado, de um certo abandono por parte dos mais próximos! A cor do rosto, os olhos desmesuradamente e estranhamente esbugalhados, transparecendo uma espécie de tristeza imane, talvez pelas agruras da vida e que dizem perpassa de fio a pavio na hora da morte.

Naquele retrato está a marca genética dos teus pais e até do teu avô. Vizinhos sempre muito amigos. Vem-me à memória o teu avô, o Ti Custódio e os seus dotes para aliviar as dores nas costas. Fazia-nos sentar numa cadeira, com os pés bem juntos e  depois, com os seus braços muito compridos puxava os nossos, agarrando com força nos pulsos, alinhando as pontas dos dedos de ambas as mãos bem acima da cabeça e desse modo, alinhando a coluna. Claro que depois, tinha que haver a habitual ladainha rezada por todos os presentes. Eu acreditava na eficácia do movimento, ele acreditava na força da fé... Lembro-me do teu pai, o Sr. Basílio a chegar na sua bicicleta, da sua expressão favorita quando falava com o meu avô "é uma porra Tintoino" e das provas do vinho, para saber se era preciso mais metabissulfito de potássio para harmonizar o néctar. Da tua mãe, a Srª Lucília guardo, todo o carinho e saudade, como a uma mãe, não posso sequer conter as lágrimas, ao lembrar o seu amor incondicional para me amamentar e calar o choro sempre que a minha mãe tinha de ir para a escola ou mais recentemente, sempre que me pressentia lá por casa e me levava um pão caseiro da fornada mais recente e acabávamos a conversar com gosto sobre as coisas da vida...